SAÚDE | Confira semelhanças e diferenças entre a gripe espanhola e a covid-19

A análise comparativa das reações sociais e governamentais entre a gripe espanhola (1918-1921) e a covid-19 (2020-?) no Brasil indica muitas semelhanças. Entre elas, a difusão de medicamentos ineficazes alardeados como soluções. Mas também traz relevantes diferenças, com destaque para a ação, a omissão e o discurso das autoridades públicas.

Ambas as doenças vieram do Exterior, pelos meios de transporte, e ambas foram desacreditadas no início, como uma espécie de alarme falso ou exagerado. Em ambas, a semelhança com a gripe comum causou falsa impressão inicial de conhecimento da doença. Além disso, ambas reforçaram a desigualdade social existente: os primeiros disseminadores eram viajantes vindos do Exterior, geralmente das camadas de renda média e alta; mas a contaminação atingiu rápida e amplamente os grupos de baixa renda, dadas suas condições socioambientais. 

Prosseguindo com as semelhanças, em ambas, houve teorias conspiratórias: na gripe espanhola, os dois lados na Primeira Guerra Mundial acusavam-se reciprocamente; na covid-19, a disputa Estados Unidos-China afetou as responsabilizações. Também nos dois casos, medicamentos “fantásticos”, jamais confirmados pela ciência, tiveram seus dias de glória: grippina e quinino, na Espanhola; cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina na covid-19. A curiosidade é que a cloroquina, há muito tempo, passou a substituir o quinino no combate à malária, com eficácia e validação da ciência. Outra semelhança significativa é a repulsa ao uso de máscaras por segmentos minoritários, porém barulhentos.

Um aspecto notável é o do avanço simultâneo do conhecimento e da ignorância, no século entre as duas pandemias. O que explica que, não obstante o grande avanço e popularização do conhecimento científico, argumentos anticientíficos continuem a prosperar um século após? A hipótese básica é que o negacionismo científico, antes restrito a grupos articulados em torno de interesses religiosos ou econômicos específicos, e aos amantes de teorias da conspiração, tem ganhado corações e mentes nos últimos anos por intermédio das redes sociais.

Com a chegada da covid-19, o fenômeno se intensificou. E, assim, o que era a contracorrente tornou-se, em alguns casos, discurso oficial e política de Estado. Esse processo de institucionalização do negacionismo na figura de líderes políticos teria comprometido a eficácia das medidas de combate à pandemia em países como Brasil, Estados Unidos e Reino Unido.

A saúde pública é outro tema em comum. O Brasil da Velha República praticamente não possuía nada digno desse nome. Mas, um século depois, o SUS sofreu sucessivos cortes e desativações no quinquênio 2015-2020. Com isso, 40 mil leitos foram desativados no início da covid-19. Houve fortes restrições orçamentárias para a compra de equipamentos e contratação de novos profissionais, resultando no trabalho hercúleo (e heróico) dos profissionais da saúde. 

Durante a gripe espanhola, destacou-se o sanitarista Carlos Chagas no comando das ações de combate à pandemia. Mas bem diferente foi o percurso da saúde pública no Brasil da covid-19. Dois médicos sucederam-se no Ministério da Saúde, buscando cumprir protocolos científicos, mas o confronto não foi com a imprensa ou a opinião pública, como em 1918-1919. Agora, o bloqueio veio do chefe do Executivo e suas diretrizes, em confronto direto com as entidades médicas nacionais e internacionais e com a comunidade científica.

Artigo extraído da 17ª Carta do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (Conjuscs)

Por Redebrasilatual.com.br / Foto WordPress

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